NUPEC - Núcleo de Pesquisa e Estudo em Chondrichthyes  
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Boletim Informativo do NUPEC

Matérias deste Número
O que vem a ser Alopias?
Elasmobrânquios do Trimestre: | O Gênero Alopias | Dasyatis americana | Quimeras do Brasil |
Biotérios Aquáticos
Contribuições Zoológicas
Doenças em tubarões
O que vem a ser Alopias?
Equipe do Boletim do NUPEC
boletim@nupec.com.br

O Núcleo de Pesquisa e Estudo em Chondrichthyes lança seu Boletim Informativo denominado “Alopias”. O nome do Boletim foi inspirado no gênero de tubarão Alopias - LAMNIFORMES – ALOPIIDAE, por ser um animal vistoso e um tanto diferente de todos os outros gêneros de tubarões. Um animal de fácil identificação devido o tamanho de sua nadadeira caudal, que pode alcançar o mesmo comprimento que o resto do seu corpo.

Este Boletim terá a colaboração de vários pesquisadores e poderá ter a sua participação também, basta nos enviar seus dados e um resumo de alguma matéria ou artigo científico que você deseje ver publicado em nosso Boletim.

Após o envio dos dados necessários, estes serão analisados pelo mantenedor do NUPEC e poderá ser anexado às próximas edições do Boletim.

Esperamos que todos aprovem nossa iniciativa e participem, pois este espaço é totalmente destinado a nós, pesquisadores e pessoas interessadas em conhecer melhor esse maravilhoso animal que há tempos se destaca sobre os demais animais marinhos.

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Elasmobrânquios do Trimestre
Gadig, Otto Bismarck Fazzano
[gadig@bignet.com.br]
Tubarões-Raposa (gênero Alopias, Família Alopiidae)

Para a inauguração desta seção, a qual sempre vai tratar de uma espécie de tubarão e uma de raia, não poderia haver outra escolha que não os chamados tubarões-raposa ou rabudo, cujo gênero leva o nome deste boletim.

Assim falaremos de três espécies num só texto, já que o gênero Alopias é conhecido por três espécies de tubarões cuja característica distintiva é a sua enorme cauda, que apresenta um lobo superior com comprimento equivalente ao do restante do corpo. São animais de grande porte (cerca de cinco metros) e que normalmente vivem em águas oceânicas afastadas da costa de todo o mundo, embora não raro penetrem sobre a plataforma continental de áreas costeiras.

No Brasil ocorrem duas espécies, A. vulpinus e A. superciliosus, ambas ao longo de todo o nosso litoral e capturadas freqüentemente pelos barcos atuneiros que atuam nessas regiões. A terceira espécie, A. pelagicus, é conhecida na egião do Indo-Pacífico. As espécies brasileiras podem ser identificadas facilmente entre si. A. vulpinus apresenta olho menor (o diâmetro horizontal é sempre menor do que 10% do comprimento total do corpo), tôpo da cabeça liso e a coloração clara da barriga avança sobre a base das nadadeiras peitorais. É aparentemente menos abundante. Já A. superciliosus possui olho bem grande (cerca de 10% do comprimento total, tôpo da cabeça com um sulco em forma de "V" e a coloração branca da barriga não avança por sobre as bases das nadadeiras peitorais.

A reprodução nestes tubarões se dá por viviparidade ovofágica, ou seja, os embriões se nutrem no útero materno às custas do consumo de óvulos ou ovos que a mãe libera durante o início de sua gestação. Uma estratégia interessante observada em pouquíssimas espécies de tubarão. As táticas de predação nestes tubarões envolvem a utilização de sua longa cauda, a qual é utilizada como um tipo de chicote, para atordoar e desorientar cardumes de peixes dos quais normalmente se alimentam.

Nenhuma espécie de tubarão-raposa é considera perigosa ou potencialmente perigosa ao ser humano. À bordo de embarcações de pesca, exemplares recém capturados se debatem muito e sua cauda pode causar lesões consideráveis em algum pescador descuidado.

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Raia-Prego ou Chicote (Dasyatis americana)

No Brasil, várias espécies são conhecidas como raia-prego, chicote ou raia-de-ferrão. Entre elas as pertencentes ao gênero Dasyatis (família Dasyatidae), com cerca de 35 espécies descritas no mundo. Caracterizam-se normalmente pelo disco (cabeça, corpo e nadadeiras peitorais fundidos), focinho terminando em pontas de várias angulações, e cauda filamentosa, sem nadadeira dorsal, com pregas longitudinais e espinho situado na sua porção mediana. Na costa brasileira são conhecidas cerca de sete espécies de Dasyatis. D. americana, a espécie em questão, é distinguida das demais por apresentar disco rombóide, fileira de tubérculos na região longitudinal mediana dorsal do corpo, mais visíveis em exemplares adultos e cauda filamentosa que apresenta prega cutânea ventral bem desenvolvida e superior é rudimentar.

Ocorre no Atlântico ocidental, desde a altura de Nova Jérsei (EUA) até o Sudeste brasileiro. Na costa brasileira é mais comum no Nordeste, normalmente junto aos fundos marinhos rochosos e coralinos, sendo flagrantemente mais abundante no Atol das Rocas e Arquipélago de Fernando de Noronha, onde grupos formados por indivíduos de vários tamanhos podem ser observados com freqüência por mergulhadores. Nas Ilhas Cayman, no Caribe, grandes concentrações desta raia já viraram grande atração turística local, conhecida internacionalmente, sobretudo em dois pontos específicos, um dos quais na cidade de Stingray (que significa raia de ferrão).

Crescem até aproximadamente 1,5 metros de largura. O desenvolvimento do embrião se dá por viviparidade trofonemática, ou seja, os embriões se nutrem através de substâncias gordurosas liberadas por estruturas situadas na parede interna do útero conhecidas por trofonematas. Um modo interessante e restrito a poucas espécies de raias de ferrão.

São bastante populares em cativeiro e notadamente dóceis ao manuseio por humanos, tanto em aquários como em ambiente natural. Os grandes ferrões na causa são associados à tecidos venenosos e podem causar problemas a seres humanos. No entanto, os raros casos de morte são atribuídos muito mais aos danos físicos causados pelos espinhos - com lesões que podem causar perda de sangue em níveis perigosos - do que a ação do veneno.

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Quimeras do Brasil

Estes pouco conhecidos Chondrichthyes estão distribuídos no mundo com pouco mais de 50 espécies, a maioria pouco estudada por habitar grandes profundidades. Todas as quimeras são ovíparas, ou seja, depositam ovos no substrato, onde ficarão até serem rompidos pelo embrião.

As quimeras são divididas em três famílias facilmente identificáveis: Chimaeridae - com focinho curto, Segunda nadadeira dorsal alongada e baixa como uma crista e cauda não heterocerca; Callorhynchidae - com focinho rombudo, segunda nadadeira dorsal alta e cauda heterocerca; e Rhinochimaeridae, com focinho longo, ponteagudo, Segunda nadadeira dorsal como uma crista e cauda de formatos variáveis. No Brasil são conhecidas duas espécies, pertencentes às duas últimas famílias citadas. Callorhynchus callorhynchus (Callorhynchidae) e Harriotta raleighana (Rhinochimaeridae). A primeira é mais conhecida e todos os registros até o presente são oriundos do sul (no Sudeste, apenas um registro no Rio de Janeiro e alguns em São Paulo).

É bastante comum no Uruguai e principalmente Argentina, onde é amplamente estudada pela equipe de pesquisadores do Instituto de Biologia Marinha e Pesqueira "Almirante Storni", coordenada pelo Dr. Edgardo E. D. Giacomo, que nos últimos anos publicou muita coisa sobre morfologia, anatomia, reprodução, alimentação e biologia populacional desta espécies no litoral da Argentina. Pode crescer até 1 m de comprimento.

Alimenta-se basicamente de invertebrados bentônicos que desenterra e mastiga com sua mandíbula adaptada. A outra espécie citada para o Brasil (Harriota raleighana) tem sua ocorrência referida para a costa do Brasil, porém não foram encontradas as citações específicas (Last & Stevens, 1994, Sharks and Rays of Australia, CSIRO Divison of Fisheries, mapa da página 482). Esta espécie pode crescer até cerca de 1 metro e vive em áreas afastadas da costa, em grandes profundidades, a exemplo de muitas outras espécies de quimeras.

A fauna de quimeras no Brasil é possivelmente maior do que o quadro atual mostra. Os hábitos demersais de águas profundas da maioria das espécies sugere que é possível ocorrer outras espécies em nosso litoral e cuja captura ainda depende da utilização de equipamentos que operem nesses ambientes.

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Biotérios Aquáticos
Rodrigues Neto, André Rodrigues
[andreneto@nupec.com.br
]

A modernidade e a tecnologia neste fim de século e inicio de uma nova era, caminham juntas no que diz respeito a montagem e manutenção de habitats aquáticos para fins científicos ou apenas pelo simples hobby, os mistérios que envolvem a possibilidade de nos igualarmos a natureza estão mais próximos de nosso alcance.

A construção de biotérios aquáticos marinhos ou dulcícolas envolvem uma série de equipamentos e técnicas de filtragem modernas e eficientes as quais garantem o bem estar e a “vida” dos animais que desejamos estudar ou manter. As técnicas e métodos utilizados variam de acordo com as espécimes a qual será imposta a vida em cativeiro. Para tanto, temos que fazer com que o habitat imposto a este indivíduo seja o mais parecido possível (parâmetros físico – químicos e biológicos) com o seu habitat natural.

O departamento de biotérios aquáticos do NUPEC conta com toda a tecnologia e estrutura para a construção e manutenção de cativeiros fechados para o estudo em Chondrichthyes. Os sistemas são adaptados de acordo com os dados comportamentais das espécies presentes no Núcleo, e estes são equipados com os melhores métodos de filtragem existentes, tais como: Filtros Nitrificantes, Denitrificantes, esterilização com UV, filtragem Dry-Wet, potentes skimmers (aparelho utilizado para a remoção de proteína em excesso) e processadores e simuladores de correntes de água para uma oxigenação eficiente.

Com isto, temos o prazer de mencionar que temos em nossos cativeiros, animais que chegaram em estado embrionário e hoje com 2 anos e meio, vivem em plena saúde devido a tecnologia moderna e a metodologia aplicada.

Os cativeiros são extremamente importantes para o estudo com animais aquáticos, portanto estes sistemas devem conter o máximo para que o animal possa “viver” de maneira saudável, visando, a longo prazo, um perfeito estudo. O simples fato de podermos manter animais em cativeiro nos dão o pleno prazer e satisfação para a conclusão com os estudos, e é “impossível” não ficarmos cativados com os animais.

"Existe um lugar no mundo chamado Oceano, onde habitantes vivem em uma
harmonia tão perfeita que nos faz inveja, Seres Humanos.”.

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NUPEC inicia dois programas de Contribuições Zoológicas.
Magenta-da-Cunha, Carlo
[ magenta@nupec.com.br]

Diariamente o NUPEC acompanha a frota pesqueira que desembarca no Terminal de Pesca de Santos, TPS, para acompanhamento e aquisição de exemplares de Chondrichthyes e parasitas dos mesmos onde são acondicionados em nossa Coleção. É comum as embarcações trazerem, além do material de nosso interesse, outros grupos taxonômicos.

Estamos implantando o programa de Contribuições Zoológicas que visa a doação de material científico e didático, onde Colégios, Universidades e Instituições de Pesquisa, que possuam coleções, podem cadastrar-se para receber esse material. Por enquanto apenas as coleções de Carcinologia e Malacologia do Museu de Zoologia da USP estão sendo beneficiadas. Interessados que mantenham coleções, podem cadastrar-se mandando uma carta ou e-mail.

Os exemplares que por algum motivo não sirvam para coleções científicas, estarão enquadrados em Contribuições Didáticas, onde Colégios e Universidades podem requerer este material da mesma forma.

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Doenças em tubarões
Gonzalez, Manoel  Mateus Bueno 
[gonzalez@nupec.com.br]

Contrariando o conceito de muitas pessoas, além de pesquisadores, de que os tubarões podem contrair inúmeras doenças, inclusive câncer, assim como os humanos e praticamente todos os filos animais. O primeiro trabalho científico publicado sobre infecções em elasmobrânquios (Jagerskiold 1896), a mais de cem anos atrás, descrevia a infecção de raias por Micropharynx parasitica, um verme pertencente à classe Turbellaria.

Desde o primeiro trabalho até hoje, já foram identificados mais de 4500 agentes patogênicos que causam problemas aos elasmobrânquios. Os principais agentes infecciosos podem ser divididos em bactérias, fungos, algas e parasitas. A cada publicação do boletim, serão discutidas novas formas de infecção.

Infecções bacterianas

Esta pode ser considerada com uma das mais interessantes formas de infecções em tubarões, quando relacionada com a sua flora bucal. Isto deve-se à estudos relacionados com a comparação de bactérias encontradas nos ferimentos de vítimas de ataques com as bactérias encontradas na boca dos tubarões. Por exemplo, a boca do tubarão-branco possui uma grande variedade de espécies de Vibrio, incluindo V. alginolyticus, V. fluvialis e V. parahaemolyticus (Buck et al. 1984). Mas, pouco se sabe sobre as bactérias que podem causar doenças aos tubarões quando comparado à outros grupos de peixes.

As evidências mais normais, são aquelas por bactérias que colonizam a boca e o trato digestivo dos tubarões (Knight et al. 1987). O sangue dos tubarões geralmente apresenta-se estéril, mas a musculatura, estômago e fígado pode conter entre 100 e 10.000 bactérias por grama de tecido (Grimes et al. 1985, Knight 1978).

A pior bactéria isolada de tubarões até hoje, pode hidrolizar uréia e é capaz de usar a uréia como única fonte de carbono e nitrogênio (Grimes et al. 1984). A espécie mais comum encontrada é o Vibrio carchariae que pode ser encontrado na maioria dos tubarões como por exemplo: tubarão-mangona, tubarão-limão, tubarão-branco, entre outros.

Infecções por vírus
Trabalhos sobre doenças virais em tubarões são escassas, e poucas destas doenças foram estudadas com profundidade. Com certeza, mediante novos estudos sobre doenças em tubarões, apareçam novos vírus. Abaixo segue uma tabela sobre os vírus mais estudados.
Doenças Vírus Tubarão
Dermatite Herpetovírus Cação-bagre
Necrose Desconhecido Cação-bagre
Literatura Citada
Buck, J. D.; S. Spotte e J. J. Gadbaw 1984. Bacteriology of the teeth from a great white shark: Potential medical implication for shark bite victims. J. Clin. Microbiol. 20(5):849-851

Grimes, D. J.; J.Stemmler; H. Hada; E. B. May; D. Maneval; F. M. Hetrick; R. T. Jones; M. Stoskopf e R. R. Cowell. 1984. Vibrio species associated with mortality of sharks held in captivity. Microb. Ecol. 10:271-282.

Grimes, D. J.; S. H. Gruber e E. B. May. 1985. Experimental infection of lemon sharks, Negaprion brevirostris (Poey), with Vibrio species. J. Fish Dis. 8:173-180

Jagerskiold, L. A. 1896. Micropharynx parasitica. Ofversigt Vetensk. Akad. Forhandl. Stockholm 53.

Knigth, I. T.; D. J. Grimes e R. R. Colwell. 1987. Bacterial hydrolysis of urea in the tissues of carcharhinid sharks. Can. J. Fish. Aquatic Sci. 45:357-360.

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